Pedro Poppi – a autobiografia não-autorizada
Pedro Poppi na época em que era preto, pobre, homossexual e latino (2012)
Sob a fraca luz da lua decrescente de uma fria noite de setembro, nasceu uma criança com aproximadamente três quilos. Uma estrela cadente rasgou o céu enquanto a “Sagração da Primavera” de Stravinsky servia como trilha sonora. Tudo indicava o nascimento de uma criança especial. Conscientes desse fato, seus pais a colocaram em uma cestinha de palha e o ofereceram à Iemanjá nas perfumadas águas da Praia Grande. Para o desespero de seus pais, a criança, atraída por água da Jamaica, pôde retornar em segurança para seus braços.
Mas seus pais não desistiram de investir em seu futuro promissor, por isso deixaram o pequeno menino sob os cuidados de seus tios. Eles formavam um casal muito agradável. Ele, portando uma barba que o deixava com uma aparência parecida com a de Rasputin e ela portando uma barba que a deixava parecida com o Enéas. Como estavam empenhados em pichar as frases do Necronomicon – o livro dos mortos – nos muros de toda a cidade mas viam-se repentinamente com total falta de sangue humano, uma criança em fase de crescimento parecia a solução perfeita. Alguns anos se passaram mas o menino não parecia muito disposto a ganhar peso ou produzir mais que três gotas de sangue anualmente e ele foi devolvido para seus pais, sob a falsa acusação de tráfico de salame. Embora fisicamente bem, seu emocional lembrava muito o de Calígula, o que acabou forçando seus pais a deixá-lo trancado no porão pendurado pelo lábio inferior.
Durante seus anos no porão de casa, seus pais resolveram alistá-lo na legião estrangeira e dar-lhe um nome: Pedro Poppi.
Pedro nasceu virginiano com ascendente em periquito. Ele nasceu sem o testículo direito mas Deus, com sua infinita sabedoria, dotou-lhe com duas pernas esquerdas. Para seus pais, essa não era a questão. Eles não sabiam muito bem qual era a questão, mas tinham certeza de que não era essa.
Ele cresceu normalmente como qualquer outra criança magrela, mas escondia das outras pessoas suas inacreditáveis habilidades, temendo ser pregado em um pedaço de madeira no topo de algum monte por um bando de anões argentinos besuntados de óleo fanáticos por Big Brother Brasil.
Anos atrás Pedro poderia ter sido considerado um homem bonito, embora não muito depois da Idade da Pedra Lascada. Hoje ele é bem mais velho do que foi há muito tempo, mas não tem nem metade da idade de quando tiver mais do que o dobro. Ama o próximo como a si mesmo, embora muitas vezes o anterior acaba ficando furioso.
Ele entrou em uma importante universidade e, após concluir sua tese para mestrado sobre qual seria a quantidade necessária de LSD que um indivíduo conseguia consumir antes de gritar “Para o infinito e além!” e pular do 13° andar de algum edifício, Pedro começou a estudar as obras de Nelson Rodrigues. Esse foi um passo importantíssimo em sua vida acadêmica, pois passou a aprender somente as frações ordinárias. Infelizmente Pedro foi obrigado a largar a faculdade pois foi flagrado em atitudes imorais com uma equação do primeiro grau.
Mais tarde, com uns dois ou três quilos a mais, decepcionado com nosso governo por permitirem a plantação de transgênicos nas lavouras de soja e trigo no sul do país, Pedro largou tudo que tinha e fugiu para o mato para tornar-se naturista. Passava o dia tocando gaita e escondendo-se de antigas contas do cheque especial, achando que desapareceriam sozinhas. A segunda esposa de Pedro o descreve como “a pessoa mais linda do mundo, exceto por Elvis Presley”. Como Elvis já morreu, a primeira afirmação também não é totalmente compreendida.
Após ter sérios problemas alérgicos por causa da plantação de comigo-ninguém-pode que cultivava, (depois de ingerir substâncias devidamente alucinógenas, achou que havia encontrado uma plantação de maconha e decidiu gravar um disco pedindo paz aos homens em quarenta idiomas) resolveu passar o resto da vida em um mosteiro no Tibet, onde constantemente participava de lutas apostando dinheiro. Um dia ele foi levado até o altar do mosteiro e um discípulo do mestre, que mais parecia um lutador de sumô, aplicou um punho cheio de anéis da ordem nas suas gengivas durante três semanas. A única coisa que o impediu de enlouquecer foi a constante repetição de seu mantra sagrado, que era “O Pimpolho é um cara bem legal, pena que não pode ver mulher”. Finalmente sucumbiu ao terror e começou a ter alucinações. Em alguns momentos ele foi flagrado murmurando “Não, obrigado. Não estou precisando de orangotangos”.
Um mês depois Pedro acordou em uma pequena aldeia indígena na parte sul do norte do país e parecia relativamente bem, embora agora seja obrigado a usar uma máscara de ferro para esconder suas horríveis escoriações adquiridas no Tibet.
Apesar de ser obrigado a participar de rituais indígenas que mais parecem missas negras onde jovens índias enlouquecidas correm em círculos gritando “gente, que diferente” na língua nativa, Pedro está finalmente feliz. No meio tempo entre as caçadas onde usa como arma dois elásticos e uma faca de manteiga, ele aproveita seu tempo livre para desenhar mulheres nuas e algumas míseras páginas de histórias em quadrinhos.
Hoje goza de grande alegria, pois lhe é permitido reviver uma antiga paixão: andar pelado.
Havia um motivo muito forte pra contar esta história, mas, temporariamente, fugiu da mente do autor.



